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O SILÊNCIO SEM FIM

"O Silêncio sem Fim" é um romance que trata de temas como adoção, família, infância, velhice, alcoolismo, perda, identidade, memória e esquecimento.

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O silêncio sem fim

Fábio Cezar


“(…) cada pessoa é um silêncio, isso sim, um silêncio, 
cada uma com o seu silêncio, cada uma com o silêncio que é.”

José Saramago
A Caverna

“Il n’est point de secrets que le temps ne révèle (…)”

[Não há segredos que o tempo não revele]

Jean Racine
Britannicus, ato IV, cena 4


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NOS ÚLTIMOS ANOS, papai começou a apresentar sintomas de perda de memória. Esquece eventos recentes, troca os nomes dos netos, confunde datas e, mais recentemente, teme sair de casa e não saber voltar. Algumas vezes, mostra-se incapaz de distinguir fatos daquilo que não passa de devaneio. Aos oitenta e tantos anos, o déficit de memória pode ser interpretado como fato inexorável associado à idade avançada. É possível que tenham sido agravantes as doses diárias de bebidas ‒ vinho, cerveja, whisky, cachaça. Conquanto já não possa lembrar o que comeu no almoço, papai não esquece de beber um dia sequer. Recentemente, confessou-me com fala mole e bafo alcoólico, com os quais me acostumei: “bebo pra esquecer…”. Mas já não lembrava o quê.

Triste ver aquele que eu costumava admirar por conhecer de cor os mais diversos itinerários dos trens e ônibus e tantos nomes de ruas e lugares, desorientado, incapaz de recordar sua própria trajetória. A decadência e degeneração física e mental, colocando o ser decrépito cada vez mais num estágio entre a vida e a morte, são aspectos dramáticos da senilidade.

Por maior que seja a dificuldade em aceitar, hoje entendo que a deslembrança do passado é inevitável. Não há remédio que aplaque o esquecimento. Esquecer é capítulo da vida.

Junto das lembranças pessoais perdidas por meu pai, vai-se também parte das memórias de nossa gente. Todo arquivo da história e valores de nossos antepassados paternos se esvai pouco a pouco, sem que possam as novas gerações revisitá-lo e retransmiti-lo. Pois os anciões são, no grupo familiar, a referência fundamental para a reconstrução do tempo que passou. Perdidas suas recordações, perdem também seus descendentes o vínculo com suas próprias origens. Afinal, o que restará de nós quando o tempo cumprir o inevitável? Apenas as lembranças que permanecerem.


Enquanto papai se esquece de si e dos seus, eu me esforço para me lembrar quem realmente sou. Meu esquecimento, porém, não se trata de um lapso de memória ou uma traição da cabeça, causada pela idade. Nem lesão traumática, doença, incidente psicológico, alcoolismo ou mera falta de atenção. É que a lembrança que persigo se perdeu nos anos. Minha vida é marcada por vasto silêncio que insiste em me perseguir.

A verdade é que há algo que me foge à lembrança. Fato que, embora saiba que me sucedeu, sou incapaz de recordar. Pois, tendo me ocorrido tão prematuramente, seria improvável trazer à memória agora. Resta-me a palavra de testemunhas honestas. O problema é que nem todos se sentem à vontade quando convidados a falar honestamente. Esquivam-se, alegam nada saber, confundem-se, dão mil e uma desculpas esfarrapadas, ou depoimentos rasos que não ajudam, ou, mais ainda, atrapalham. Quando muito, deixam intencionalmente de dizer a verdade para, por má-fé, mentir. Fico à mercê do que os outros me contam. E, longe de ser esclarecida, minha história ganha contornos ainda mais confusos.

Deste passado incerto, não poderia guardar lembrança nos olhos. Tudo o que sei resulta de relatos dos mais chegados. Solidários aos meus questionamentos, alguns parentes me revelaram o que sabiam. Pouco me disseram. Continuei sem conhecer quase nada da minha gênese. E, mesmo aquilo que me contam, aceito com certa surpresa e bastante desconfiança. Muitas são as perguntas, poucas as respostas. A dúvida é quem me acompanha desde que eu nasci.

Um pedaço de quem sou adormece em algum canto da memória. Como num livro em que faltam páginas, minha história é uma novela incompleta. E como não houvesse alguns capítulos, precisava escrevê-los para que viver fizesse sentido.

Ainda que não possa recordar o que se passou nos primeiros instantes de minha vida, não esqueceria jamais tudo o que viria depois.

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